Balanço prospectivo da SOTER (1985-2005)
Publicado IN: FREITAS, M.Carmelita (org.). Teologia e Ciências da Religião no Brasil: Balanço prospectivo da SOTER (1085-2005) p. 477-491.
Márcio Fabri dos Anjos
Este breve estudo considera alguns significados da SOTER - Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, que completa vinte anos de existência. Para examinar de uma forma prospectiva estes anos, é preciso ir além dos simples objetivos que a SOTER se colocava em sua fundação e que se expressaram em seus estatutos . De fato, na medida em que passa o tempo, vão surgindo novos contextos, novas formas de ver, outros sonhos e naturalmente também outras tarefas. Para captar tal dinamismo e colher seus significados, é necessário ler a trajetória percorrida à luz de sinalizações e de tendências para o futuro. A presente contribuição se restringe a alguns aspectos de tipo organizacional. Dentro destes limites, vamos nos preocupar também com uma leitura voltada para uma agenda da SOTER nestes próximos anos. Recuperando aspectos das opções e realizações neste período, fazemos um repasse sobre áreas que nos parecem importantes para a vitalidade da teologia e ciências da religião hoje. Ao menos indiretamente, coloca-se aqui também a questão das confessionalidades na organização civil de associações de teologia e de ciências da religião.
Inspiração de fé e de cidadania
Os membros de uma associação constituem seu ponto de partida. Seus motivos, necessidades e aspirações moldam o início da sociedade e lhe conferem o primeiro impulso. Olhando para a fundação da SOTER, encontramos um grupo de teólogos e teólogas em um contexto denso de vida eclesial e social. É interessante perceber estes dois ingredientes - "eclesial" e "social". Na verdade não se excluem nem se contrapõem, mas delimitam certamente duas áreas de tensão e ação. Elas persistem desde a fundação da SOTER até nossos dias.
Vale lembrar primeiramente como o contexto eclesial marcava o encontro nacional de teologia que amadureceu a idéia de fundar uma associação. Foi realizado em Belo Horizonte, em julho de 1984, por convocação da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sob a presidência de Dom Aloísio Lorscheider. Convocando cerca de cem teólogos/as católicos, de todo o território nacional, explicitamente se colocava entre os objetivos do encontro fazer frente à necessidade de dar um mínimo de organização ao trabalho teológico no território nacional.
Duas necessidades e preocupações chamavam particularmente a atenção. De um lado o desafio de aprofundar a epistemologia e as fundamentações teológicas; e de outro, a necessidade de dar um trato à qualidade das relações dos teólogos/as entre si, com a sociedade civil e com a Igreja institucional.
Olhado do ponto de vista eclesial, a conjuntura se mostrava pesada. Já se anunciava a investigação doutrinal, por parte da Cúria Romana, sobre as obras de Gustavo Gutierrez (1983). E também Leonardo Boff havia sido chamado pela mesma instância para um 'colóquio', em torno de suas posições teológicas. O ambiente de "volta à grande disciplina", na expressão de J.B. Libânio, pressionava sem dúvida os teólogos/as a tomarem alguma iniciativa.
Entretanto, esta conjuntura pode ser considerada pequena se colocada diante dos desafios provenientes da evolução social e cultural. Ficava cada vez mais claro que era indispensável levar a teologia a uma interação profunda com a vida e a fé do povo, ao diálogo com outras disciplinas, à superação de barreiras a não clérigos para a produção teológica de qualidade; e que a teologia devesse ter um lugar mais claro e atuante na sociedade, contribuindo para a solução de seus problemas.
Estes conceitos são explicitados na declaração de intenções dos sócios fundadores ao dizerem:
"Deparamo-nos (...) com novas tarefas, como a de produzir a teologia de modo interdisciplinar e coletivo, e a de responder às situações humanas fundamentais, que não receberam até agora a devida atenção da teologia, nem encontraram espaço para exprimirem sua originalidade no seio da Igreja. Estão nesta situação as mulheres, os povos indígenas e a grande população de origem africana. O Brasil, com sua grande maioria de empobrecidos, é também uma sociedade que se moderniza rapidamente, trazendo para a teologia as interrogações das ciências e da tecnologia, da revolução na informática e nos meios de comunicação social, da emergência de uma moderna classe operária, das classes médias e dos meios universitários e artísticos. Ciência e técnica, se orientadas socialmente, são cruciais para o superamento da miséria, fome e ignorância. São também portadores de formas críticas de pensamento e ação que precisam ser acolhidas e refletidas teologicamente."
Dentro deste contexto, embora com as dificuldades que acompanham toda realização, podemos recolher algumas características que marcam a identidade desta sociedade:
a) Enquanto várias outras associações congêneres são constituídas através de uma vinculação estatutária com a hierarquia eclesial, a SOTER foi fundada como uma associação civil. Deve-se isto em grande parte à visão de Dom Aloísio Lorscheider que, junto ao serviço inegavelmente eclesial da teologia, salientava também a conveniência de a teologia ter seu próprio espaço de organização e de ação. Esta seria inclusive uma condição benéfica para o trabalho teológico e para o próprio ambiente eclesial em suas relações com sociedade civil.
b) A confessionalidade foi uma questão colocada já no início da SOTER. Na convocação de seus sócios/as fundadores aparece inequivocamente sua origem católica romana. Entretanto, era também explícita a preocupação pelo ecumenismo que gerou inclusive uma proposta de que esta associação fosse, por sua fundação, ecumênica. Mas logo se verificou a impossibilidade deste passo sem uma ampla anuência de outras Igrejas não representadas na fundação. Júlio de Santa Ana mais explicitamente alertou, antes do encontro prévio à fundação, que poderia ser interpretado como gesto de arrogância pretender que uma associação fundada somente por católicos se declarasse ecumênica. Resultou então que, embora criada por um grupo católico romano, a SOTER em seus estatutos, não é confessional, mencionando simplesmente uma "abertura ecumênica". Mais adiante voltamos a este assunto.
c) O compromisso com a interdisciplinariedade transparece desde o início, quando teologia e ciências da religião são assumidas como parceiras, não obstante terem epistemologias diferentes. Este compromisso vai sendo desdobrado mais adiante principalmente nas escolhas dos temas dos congressos, na integração de diferentes especialistas nos debates e nas obras publicadas.
d) A destinação social da SOTER parece também clara na sensibilidade diante dos processos de empobrecimento no mundo, diante das "interrogações das ciências e da tecnologia" e das mudanças sócio-culturais de modo geral. Esta opção tem levado a uma interlocução menos restrita aos problemas internos das Igrejas e mais voltada para uma participação em questões do debate social.
e) Sob o ponto de vista dos membros, vale notar também como gradativamente a SOTER reúne participantes para além de quadros clericais que predominava em tempos anteriores, especialmente por suas vinculações com o ensino em seminários. Contribuíram para isto as mudanças ocorridas na área acadêmica e na profissionalização do ensino em teologia e ciências da religião. A própria composição das diretorias da sociedade tem mostrado as mudanças neste sentido.
Estas características permitem dizer que os serviços da SOTER têm uma inegável inspiração e um compromisso de fé cristã, expresso na declaração inicial em termos de "refletir a experiência da fé das pessoas e da comunidade eclesial, à luz dos apelos da realidade em face à Palavra de Deus e à Tradição, sistematizando-a e explicitando-a na plenitude de todas as suas dimensões, na fidelidade à Tradição Bíblica e ao Magistério." Mas deve-se dizer também que a SOTER está marcada por uma consciência de cidadania, pela qual é levada a buscar formas autônomas de levar sua contribuição às Igrejas e à Sociedade.
Os termos de fundação concluem dizendo: "Dentro desse contexto histórico, social, cultural e eclesial, inspirados na experiência do que tem constituído a originalidade e a fecundidade eclesial da elaboração teológica no Brasil e na América Latina e atentos às novas tarefas que surgem como desafios urgentes para os anos vindouros, decidimos criar a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (...)".
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