quinta-feira, 8 de julho de 2010

Parcerias na organização e na reflexão

As parcerias são hoje inevitáveis e se fazem necessárias também quando se trata de uma associação de teologia e ciências da religião. Um tipo de parceria está implícito na concessão de recursos e financiamentos. A longa tradição experimentada neste campo remete a ajudas externas, particularmente da Alemanha e Áustria para a organização de nossos congressos. O primeiro financiamento conseguido do CNPq pela SOTER foi em 1998. Desde então parece ter sido mantida alguma ajuda regular.
As instituições acadêmicas têm sido, por outro, uma parceria extremamente importante para o bom desempenho da SOTER. Aliás a maioria das associações deste tipo conta com um fundamental apoio de outras instituições que fornecem sua infra-estrutura e alguma base pessoal para no funcionamento de secretaria, tesouraria, da própria diretoria e em outros serviços. Assim tem sido desde o início com a SOTER. A vitalidade da diretoria nacional e das coordenações dos regionais tem dependido sempre destes apoios institucionais.
Talvez o que se faz necessário agora seria assumir com mais consciência e organização as parcerias especificamente acadêmicas e não simplesmente de infra-estrutura. Isto significa encontrar formas de maior participação institucional nos eventos, para onde as instituições possam trazer a densidade de suas reflexões e pesquisas, colocando-as como contribuição ao debate. Esta sugestão de certa forma está sendo acolhida neste atual congresso. As próprias instituições acadêmicas podem se beneficiar com esta parceria ao expandir o espaço de seu diálogo interdisciplinar fora da instituição, ao dar a conhecer a qualidade de sua produção acadêmica e ao reforçar a identidade do próprio departamento através de reconhecimento externo. Nesta parceria a SOTER portanto se beneficia, mas também contribui com as instituições acadêmicas. O cultivo de boas relações neste âmbito poderá potencializar seus frutos.

Identidade e agenda
Em um sentido prospectivo, retomemos a questão da identidade assinalada anteriormente. Este conceito tem aqui uma simples função de abrigar alguns pontos conclusivos de agenda para os próximos anos. Uma agenda que implica em trabalhar questões que afetam a identidade, e consequentemente o bom desempenho da associação. Em outras palavras, enfatizamos quatro pontos que nos parecem vitais para a SOTER, procurando somar o que ela tem sido com alguns desafios sobre o que ela possa ser:

a) Uma associação - A partir de seus próprios objetivos, a associação cumpre uma finalidade ao menos indireta de fortalecer a identidade a seus membros. A SOTER desempenhou um interessante papel neste sentido, ao propiciar a muitos professores/as de pequenas instituições um espaço mais amplo para a discussão, atualização e relacionamentos acadêmicos. Os frequentes balanços históricos e as análises de tendências parecem favorecer bastante a uma consciência crítica e à capacidade de os membros se situarem de forma criativa em suas funções. Houve também nos primeiros anos alguns serviços de qualificação como cursos de atualização para professores. Sob este aspecto, é sempre interessante perguntar aos membros quais seriam os interesses e as necessidades diante das quais gostariam de contar com o apoio da SOTER.

b) Identidade acadêmica - A identidade acadêmica da SOTER é uma realidade que merece particular atenção. Para garantir o perfil de uma associação que reúne pesquisadores/as e professores do ensino universitário, a qualidade dos debates e produções é uma necessidade. Aqui haveria talvez que dedicar um particular esforço nos aspectos epistemológicos e argumentativos que sempre se fazem presente mesmo em abordagens temáticas. No debate sobre critérios e fundamentos se consegue a densidade analítica e se avança na produção acadêmica. Os congressos não são necessariamente os melhores espaços para se aprofundar uma discussão. Mas a qualidade de suas apresentações deverá ser sempre estimuladora para o aprofundamento e novas buscas. Se os congressos perderem a densidade teórica das apresentações e dos debates, perderão uma de suas principais fontes de interesse para a participação.

Haveria aqui um desafio particular relacionado com as diferentes epistemologias da teologia e das ciências da religião. Ao que parece a conjugação das duas disciplinas na sociedade tem sido benéfica para ambas e seria então sob vários aspectos uma perda se isto não fosse levado adiante. Os enfoques interdisciplinares e mesmo transdisciplinares constituem o chão propício que até o momento tem sustentado o proveito mútuo. Aqui se abre uma dimensão a ser bem cultivada dentro das atividades da associação.

c) Identidade social - A identidade social é outra dimensão entrelaçada com as anteriores e vital para a SOTER. Sua origem eclesial não significa um empecilho para sua cidadania, pois desde sua fundação ela carrega não apenas uma destinação social de seus serviços, mas também formas civis em seus procedimentos. Isto não anula, como veremos, as questões sobre identidade confessional. Mas parece uma condição indispensável para que seus serviços possam ser prestados à sociedade. Atualmente a evolução do reconhecimento civil da teologia e das ciências da religião tem contribuído bastante para reforçar esta identidade. Mas a SOTER não pode ser civil apenas por seus estatutos, e social por seu envolvimento universitário. Ela confirma sua identidade social na medida em que, a partir de seus enfoques disciplinares específicos, se mostra capaz de contribuir no equacionamento de questões substantivas que a sociedade está vivendo.

d) Identidade confessional - A identidade confessional é um assunto que merece uma atenção particular e que eventualmente poderia ser discutida de modo mais amplo. Aqui recolhemos apenas algumas poucas anotações, mais em forma de pergunta do que propriamente de proposta. Em outra ocasião já mencionamos que as confessionalidades não são por si um empecilho para o discurso acadêmico. Lembramos que as ciências não são neutras e portanto estão também expostas a vários tipos de "confessionalidades".[1] Tudo depende de como se lida com as convicções, e como se dá a abertura ao diálogo com outras percepções. Parece claro também que uma condição para o diálogo acadêmico entre saberes consiste em se abrir para a discussão das próprias fundamentações. Estas e outras considerações semelhantes levariam a SOTER a não se acanhar em admitir alguma identidade confessional. Neste sentido, parece claro que de modo geral suas opções são cristãs e bastante marcadas por compromissos em estabelecer estreita relação entre a fé e a vida social.

Mas, falando de confessionalidade em um sentido mais estrito, existem outras questões que, como notamos anteriormente, foram percebidas desde o início, levando a SOTER a registrar em seus estatutos a disposição de abertura ecumênica. Hoje se pode certamente dizer que há um grande consenso sobre a necessidade de abertura para o diálogo ecumênico e interreligioso também no âmbito acadêmico. A pergunta a partir daí é como assumir tal tarefa em termos de associação. Entendo que os desafios para isto se colocam em dois aspectos principais. Um deriva do fato de que a teologia se faz por referência às experiências contextuais da fé; neste âmbito aparecem as comunidades e as diferenças confessionais; e consequentemente também as teologias, no plural. A este ponto, a teologia traz inegáveis marcas confessionais, a partir de onde o debate acadêmico, envolvendo as diferenças, se torna enriquecedor. Mas para isto é preciso haver organização; e este é o segundo aspecto: quais diferentes confessionalidades o grupo se dispõe a abrigar sistematicamente (e não apenas de modo episódico), e de que modo garante os espaços para suas diferentes expressões. Aqui se definem necessariamente fronteiras, pois nenhuma associação consegue ser ilimitamente aberta.

Por seus estatutos, a SOTER não é uma associação confessional, no sentido estrito. Centra-se no debate científico. Sem desconhecer que a elaboração da teologia provém de confessionalidades, enfatiza a disposição de levar adiante a abertura ecumênica. Mas sua origem e o conjunto fortemente majoritário de seus membros sugerem uma identidade real católica romana, que seria ingênuo negar, inclusive por uma questão de respeito a outras confessionalidades. Esta identidade real pode mudar na medida em que as diferentes confessionalidades se sintam não apenas afetivamente bem dentro da associação, mas também efetivamente em sua forma de se estruturar e de proceder. A identidade confessional é, desta forma, uma pergunta que a SOTER certamente carrega em sua agenda existencial.

Resta ainda lembrar que os vínculos da reflexão teológica com a fé que pessoas e comunidades concretas vivem, levam a se esperar da SOTER uma contribuição específica para o interior das comunidades eclesiais. Estas necessitam dos serviços da teologia e das ciências da religião para melhor compreender e formular sua fé, bem como para traduzi-la em opções de vida. A autonomia civil da SOTER não veio como independência e desvinculação com respeito às comunidades, mas como instrumento para garantir uma contribuição mais livre e participativa. O fortalecimento dos laços da teologia e das ciências da religião com as universidades não deveria significar enfraquecimento dos laços com as comunidades de fé. Caso contrário, a teologia perderia facilmente o pathos que a teologia na América Latina tanto valorizou.Nesta mesma linha seria por fim útil lembrar que a SOTER se alimenta de uma mística. O profissionalismo universitário da maioria de seus membros não deveria obscurecer os ideais que a presidem e as fontes que a nutrem. Desta forma, parece indispensável que o coração das comunidades eclesiais, com seus problemas e esperanças, continue pulsando dentro da SOTER

[1] ANJOS, M.F. Introdução a uma pauta sobre a teologia como profissão. In IDEM. Teologia: Profissão. São Paulo:Loyola, 1996, p.21; Anjos, M.F. Interfaces da Teologia. In IDEM. Teologia aberta ao futuro. São Paulo: Loyola, 1997, p. 13-20.

Nenhum comentário:

Postar um comentário