quinta-feira, 8 de julho de 2010

TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO NO BRASIL

TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO NO BRASIL
Balanço prospectivo da SOTER (1985-2005)

Publicado IN: FREITAS, M.Carmelita (org.). Teologia e Ciências da Religião no Brasil: Balanço prospectivo da SOTER (1085-2005) p. 477-491.

Márcio Fabri dos Anjos

Este breve estudo considera alguns significados da SOTER - Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, que completa vinte anos de existência. Para examinar de uma forma prospectiva estes anos, é preciso ir além dos simples objetivos que a SOTER se colocava em sua fundação e que se expressaram em seus estatutos . De fato, na medida em que passa o tempo, vão surgindo novos contextos, novas formas de ver, outros sonhos e naturalmente também outras tarefas. Para captar tal dinamismo e colher seus significados, é necessário ler a trajetória percorrida à luz de sinalizações e de tendências para o futuro. A presente contribuição se restringe a alguns aspectos de tipo organizacional. Dentro destes limites, vamos nos preocupar também com uma leitura voltada para uma agenda da SOTER nestes próximos anos. Recuperando aspectos das opções e realizações neste período, fazemos um repasse sobre áreas que nos parecem importantes para a vitalidade da teologia e ciências da religião hoje. Ao menos indiretamente, coloca-se aqui também a questão das confessionalidades na organização civil de associações de teologia e de ciências da religião.

Inspiração de fé e de cidadania
Os membros de uma associação constituem seu ponto de partida. Seus motivos, necessidades e aspirações moldam o início da sociedade e lhe conferem o primeiro impulso. Olhando para a fundação da SOTER, encontramos um grupo de teólogos e teólogas em um contexto denso de vida eclesial e social. É interessante perceber estes dois ingredientes - "eclesial" e "social". Na verdade não se excluem nem se contrapõem, mas delimitam certamente duas áreas de tensão e ação. Elas persistem desde a fundação da SOTER até nossos dias.
Vale lembrar primeiramente como o contexto eclesial marcava o encontro nacional de teologia que amadureceu a idéia de fundar uma associação. Foi realizado em Belo Horizonte, em julho de 1984, por convocação da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sob a presidência de Dom Aloísio Lorscheider. Convocando cerca de cem teólogos/as católicos, de todo o território nacional, explicitamente se colocava entre os objetivos do encontro fazer frente à necessidade de dar um mínimo de organização ao trabalho teológico no território nacional.
Duas necessidades e preocupações chamavam particularmente a atenção. De um lado o desafio de aprofundar a epistemologia e as fundamentações teológicas; e de outro, a necessidade de dar um trato à qualidade das relações dos teólogos/as entre si, com a sociedade civil e com a Igreja institucional.
Olhado do ponto de vista eclesial, a conjuntura se mostrava pesada. Já se anunciava a investigação doutrinal, por parte da Cúria Romana, sobre as obras de Gustavo Gutierrez (1983). E também Leonardo Boff havia sido chamado pela mesma instância para um 'colóquio', em torno de suas posições teológicas. O ambiente de "volta à grande disciplina", na expressão de J.B. Libânio, pressionava sem dúvida os teólogos/as a tomarem alguma iniciativa.
Entretanto, esta conjuntura pode ser considerada pequena se colocada diante dos desafios provenientes da evolução social e cultural. Ficava cada vez mais claro que era indispensável levar a teologia a uma interação profunda com a vida e a fé do povo, ao diálogo com outras disciplinas, à superação de barreiras a não clérigos para a produção teológica de qualidade; e que a teologia devesse ter um lugar mais claro e atuante na sociedade, contribuindo para a solução de seus problemas.
Estes conceitos são explicitados na declaração de intenções dos sócios fundadores ao dizerem:
"Deparamo-nos (...) com novas tarefas, como a de produzir a teologia de modo interdisciplinar e coletivo, e a de responder às situações humanas fundamentais, que não receberam até agora a devida atenção da teologia, nem encontraram espaço para exprimirem sua originalidade no seio da Igreja. Estão nesta situação as mulheres, os povos indígenas e a grande população de origem africana. O Brasil, com sua grande maioria de empobrecidos, é também uma sociedade que se moderniza rapidamente, trazendo para a teologia as interrogações das ciências e da tecnologia, da revolução na informática e nos meios de comunicação social, da emergência de uma moderna classe operária, das classes médias e dos meios universitários e artísticos. Ciência e técnica, se orientadas socialmente, são cruciais para o superamento da miséria, fome e ignorância. São também portadores de formas críticas de pensamento e ação que precisam ser acolhidas e refletidas teologicamente."
Dentro deste contexto, embora com as dificuldades que acompanham toda realização, podemos recolher algumas características que marcam a identidade desta sociedade:
a) Enquanto várias outras associações congêneres são constituídas através de uma vinculação estatutária com a hierarquia eclesial, a SOTER foi fundada como uma associação civil. Deve-se isto em grande parte à visão de Dom Aloísio Lorscheider que, junto ao serviço inegavelmente eclesial da teologia, salientava também a conveniência de a teologia ter seu próprio espaço de organização e de ação. Esta seria inclusive uma condição benéfica para o trabalho teológico e para o próprio ambiente eclesial em suas relações com sociedade civil.
b) A confessionalidade foi uma questão colocada já no início da SOTER. Na convocação de seus sócios/as fundadores aparece inequivocamente sua origem católica romana. Entretanto, era também explícita a preocupação pelo ecumenismo que gerou inclusive uma proposta de que esta associação fosse, por sua fundação, ecumênica. Mas logo se verificou a impossibilidade deste passo sem uma ampla anuência de outras Igrejas não representadas na fundação. Júlio de Santa Ana mais explicitamente alertou, antes do encontro prévio à fundação, que poderia ser interpretado como gesto de arrogância pretender que uma associação fundada somente por católicos se declarasse ecumênica. Resultou então que, embora criada por um grupo católico romano, a SOTER em seus estatutos, não é confessional, mencionando simplesmente uma "abertura ecumênica". Mais adiante voltamos a este assunto.
c) O compromisso com a interdisciplinariedade transparece desde o início, quando teologia e ciências da religião são assumidas como parceiras, não obstante terem epistemologias diferentes. Este compromisso vai sendo desdobrado mais adiante principalmente nas escolhas dos temas dos congressos, na integração de diferentes especialistas nos debates e nas obras publicadas.
d) A destinação social da SOTER parece também clara na sensibilidade diante dos processos de empobrecimento no mundo, diante das "interrogações das ciências e da tecnologia" e das mudanças sócio-culturais de modo geral. Esta opção tem levado a uma interlocução menos restrita aos problemas internos das Igrejas e mais voltada para uma participação em questões do debate social.
e) Sob o ponto de vista dos membros, vale notar também como gradativamente a SOTER reúne participantes para além de quadros clericais que predominava em tempos anteriores, especialmente por suas vinculações com o ensino em seminários. Contribuíram para isto as mudanças ocorridas na área acadêmica e na profissionalização do ensino em teologia e ciências da religião. A própria composição das diretorias da sociedade tem mostrado as mudanças neste sentido.
Estas características permitem dizer que os serviços da SOTER têm uma inegável inspiração e um compromisso de fé cristã, expresso na declaração inicial em termos de "refletir a experiência da fé das pessoas e da comunidade eclesial, à luz dos apelos da realidade em face à Palavra de Deus e à Tradição, sistematizando-a e explicitando-a na plenitude de todas as suas dimensões, na fidelidade à Tradição Bíblica e ao Magistério." Mas deve-se dizer também que a SOTER está marcada por uma consciência de cidadania, pela qual é levada a buscar formas autônomas de levar sua contribuição às Igrejas e à Sociedade.
Os termos de fundação concluem dizendo: "Dentro desse contexto histórico, social, cultural e eclesial, inspirados na experiência do que tem constituído a originalidade e a fecundidade eclesial da elaboração teológica no Brasil e na América Latina e atentos às novas tarefas que surgem como desafios urgentes para os anos vindouros, decidimos criar a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (...)".

CONGRESSOS

As realizações da SOTER nestes vinte anos oferecem conotações bem concretas de onde se podem colher as preocupações temáticas que ocuparam a associação neste período. Os temas, normalmente escolhidos em assembléia mostram as conjunturas de cada época e ao mesmo tempo as opções feitas pelo grupo, suas tendências e interesses. Aos eventos de participação nacional se somariam ainda as iniciativas regionais que também foram numerosas e expressivas neste sentido, mas cuja relação não tivemos meios de levantar. Vejamos a relação temática dos encontros e congressos realizados:
1985 (25-28 de julho): encontro de teologia e fundação da SOTER.
1986: A Igreja Povo de Deus.
1987: Desafios da mentalidade moderna à fé cristã numa visão prospectiva.
1988: América Latina: 500 anos de Evangelização.
1989: Mística e Política.
1990: Evangelização e culturas.
1991: 25 anos de Teologia Latino-americana: uma visão prospectiva.
1992: Santo Domingo e os 500 anos.
1994: Evangelização e Inculturação.
1996: Teologia e novos paradigmas.
1998: Experiência religiosa: risco ou aventura?
1999: Mysterium Creationis - um olhar interdisciplinar sobre o Universo.
2000: Teologia na América Latina: prospectivas.
2001: Práticas sociais, modelos de sociedade e pensar teológico.
2002: Gênero/Teologia Feminista: interpelações e perspectivas para a Teologia.
2003: Cristianismo na América Latina e no Caribe: trajetórias, diagnósticos e prospectivas.
2004: Corporeidade e Teologia.
2005: Teologia e Sociedade: relevância e funções.

Em cada um destes eventos, com duração média de três dias, estão supostos naturalmente os desdobramentos em conferências, painéis, mesas redondas e comunicações. As publicações que acompanharam os eventos registram em grande parte os conteúdos apresentados, embora não consigam espelhar a densidade dos debates. Sem entrar em tantos detalhes, mas ao mesmo tempo aproveitando a memória da participação nestes eventos, chamamos a atenção para os seguintes pontos:
a) Pode-se notar, pelo conjunto dos temas dos congressos, um forte investimento em balanços e análises globais, mostrando preocupação com tendências e perspectivas (1988; 1991; 2000; 2003). As análises históricas mostram um interesse e uma preocupação pela memória, certamente como recurso para não se perderem os rumos diante de novas perspectivas.
b) Nota-se também uma passagem de temas com perfil mais nitidamente eclesial (Igreja Povo de Deus) para as questões que vêm das mudanças culturais. Os enfoques culturais são tomados inicialmente por uma referência étnica, associando a cultura com a evangelização; mas se deslocam em seguida para uma percepção da mudança cultural por uma referência científica e tecnológica. Levam em seguida a interrogações teóricas e às questões que derivam das práticas de vida da sociedade (pós) moderna.
c) Permeia entre estes temas uma constante preocupação epistemológica, talvez com mais incidência para a teologia do que para as ciências da religião. Não se trata simplesmente do desafio de entender os novos tempos, mas se coloca a questão sobre o modo de proceder na construção das fundamentações, quando parecem exatamente mudar os próprios paradigmas da compreensão.
d) Deve-se perceber, por fim, também a importante questão da identidade de quem faz teologia e ciências da religião. De modo geral, pode-se dizer que seu discurso deixa o ambiente exclusivamente eclesial para se colocar em sociedade. Esta passagem traz naturalmente interrogações sobre a identidade das pessoas e de seus discursos. O tema em pauta, sobre a relevância e as funções da teologia na sociedade, parece carregar bastante esta preocupação.

Parcerias na organização e na reflexão

As parcerias são hoje inevitáveis e se fazem necessárias também quando se trata de uma associação de teologia e ciências da religião. Um tipo de parceria está implícito na concessão de recursos e financiamentos. A longa tradição experimentada neste campo remete a ajudas externas, particularmente da Alemanha e Áustria para a organização de nossos congressos. O primeiro financiamento conseguido do CNPq pela SOTER foi em 1998. Desde então parece ter sido mantida alguma ajuda regular.
As instituições acadêmicas têm sido, por outro, uma parceria extremamente importante para o bom desempenho da SOTER. Aliás a maioria das associações deste tipo conta com um fundamental apoio de outras instituições que fornecem sua infra-estrutura e alguma base pessoal para no funcionamento de secretaria, tesouraria, da própria diretoria e em outros serviços. Assim tem sido desde o início com a SOTER. A vitalidade da diretoria nacional e das coordenações dos regionais tem dependido sempre destes apoios institucionais.
Talvez o que se faz necessário agora seria assumir com mais consciência e organização as parcerias especificamente acadêmicas e não simplesmente de infra-estrutura. Isto significa encontrar formas de maior participação institucional nos eventos, para onde as instituições possam trazer a densidade de suas reflexões e pesquisas, colocando-as como contribuição ao debate. Esta sugestão de certa forma está sendo acolhida neste atual congresso. As próprias instituições acadêmicas podem se beneficiar com esta parceria ao expandir o espaço de seu diálogo interdisciplinar fora da instituição, ao dar a conhecer a qualidade de sua produção acadêmica e ao reforçar a identidade do próprio departamento através de reconhecimento externo. Nesta parceria a SOTER portanto se beneficia, mas também contribui com as instituições acadêmicas. O cultivo de boas relações neste âmbito poderá potencializar seus frutos.

Identidade e agenda
Em um sentido prospectivo, retomemos a questão da identidade assinalada anteriormente. Este conceito tem aqui uma simples função de abrigar alguns pontos conclusivos de agenda para os próximos anos. Uma agenda que implica em trabalhar questões que afetam a identidade, e consequentemente o bom desempenho da associação. Em outras palavras, enfatizamos quatro pontos que nos parecem vitais para a SOTER, procurando somar o que ela tem sido com alguns desafios sobre o que ela possa ser:

a) Uma associação - A partir de seus próprios objetivos, a associação cumpre uma finalidade ao menos indireta de fortalecer a identidade a seus membros. A SOTER desempenhou um interessante papel neste sentido, ao propiciar a muitos professores/as de pequenas instituições um espaço mais amplo para a discussão, atualização e relacionamentos acadêmicos. Os frequentes balanços históricos e as análises de tendências parecem favorecer bastante a uma consciência crítica e à capacidade de os membros se situarem de forma criativa em suas funções. Houve também nos primeiros anos alguns serviços de qualificação como cursos de atualização para professores. Sob este aspecto, é sempre interessante perguntar aos membros quais seriam os interesses e as necessidades diante das quais gostariam de contar com o apoio da SOTER.

b) Identidade acadêmica - A identidade acadêmica da SOTER é uma realidade que merece particular atenção. Para garantir o perfil de uma associação que reúne pesquisadores/as e professores do ensino universitário, a qualidade dos debates e produções é uma necessidade. Aqui haveria talvez que dedicar um particular esforço nos aspectos epistemológicos e argumentativos que sempre se fazem presente mesmo em abordagens temáticas. No debate sobre critérios e fundamentos se consegue a densidade analítica e se avança na produção acadêmica. Os congressos não são necessariamente os melhores espaços para se aprofundar uma discussão. Mas a qualidade de suas apresentações deverá ser sempre estimuladora para o aprofundamento e novas buscas. Se os congressos perderem a densidade teórica das apresentações e dos debates, perderão uma de suas principais fontes de interesse para a participação.

Haveria aqui um desafio particular relacionado com as diferentes epistemologias da teologia e das ciências da religião. Ao que parece a conjugação das duas disciplinas na sociedade tem sido benéfica para ambas e seria então sob vários aspectos uma perda se isto não fosse levado adiante. Os enfoques interdisciplinares e mesmo transdisciplinares constituem o chão propício que até o momento tem sustentado o proveito mútuo. Aqui se abre uma dimensão a ser bem cultivada dentro das atividades da associação.

c) Identidade social - A identidade social é outra dimensão entrelaçada com as anteriores e vital para a SOTER. Sua origem eclesial não significa um empecilho para sua cidadania, pois desde sua fundação ela carrega não apenas uma destinação social de seus serviços, mas também formas civis em seus procedimentos. Isto não anula, como veremos, as questões sobre identidade confessional. Mas parece uma condição indispensável para que seus serviços possam ser prestados à sociedade. Atualmente a evolução do reconhecimento civil da teologia e das ciências da religião tem contribuído bastante para reforçar esta identidade. Mas a SOTER não pode ser civil apenas por seus estatutos, e social por seu envolvimento universitário. Ela confirma sua identidade social na medida em que, a partir de seus enfoques disciplinares específicos, se mostra capaz de contribuir no equacionamento de questões substantivas que a sociedade está vivendo.

d) Identidade confessional - A identidade confessional é um assunto que merece uma atenção particular e que eventualmente poderia ser discutida de modo mais amplo. Aqui recolhemos apenas algumas poucas anotações, mais em forma de pergunta do que propriamente de proposta. Em outra ocasião já mencionamos que as confessionalidades não são por si um empecilho para o discurso acadêmico. Lembramos que as ciências não são neutras e portanto estão também expostas a vários tipos de "confessionalidades".[1] Tudo depende de como se lida com as convicções, e como se dá a abertura ao diálogo com outras percepções. Parece claro também que uma condição para o diálogo acadêmico entre saberes consiste em se abrir para a discussão das próprias fundamentações. Estas e outras considerações semelhantes levariam a SOTER a não se acanhar em admitir alguma identidade confessional. Neste sentido, parece claro que de modo geral suas opções são cristãs e bastante marcadas por compromissos em estabelecer estreita relação entre a fé e a vida social.

Mas, falando de confessionalidade em um sentido mais estrito, existem outras questões que, como notamos anteriormente, foram percebidas desde o início, levando a SOTER a registrar em seus estatutos a disposição de abertura ecumênica. Hoje se pode certamente dizer que há um grande consenso sobre a necessidade de abertura para o diálogo ecumênico e interreligioso também no âmbito acadêmico. A pergunta a partir daí é como assumir tal tarefa em termos de associação. Entendo que os desafios para isto se colocam em dois aspectos principais. Um deriva do fato de que a teologia se faz por referência às experiências contextuais da fé; neste âmbito aparecem as comunidades e as diferenças confessionais; e consequentemente também as teologias, no plural. A este ponto, a teologia traz inegáveis marcas confessionais, a partir de onde o debate acadêmico, envolvendo as diferenças, se torna enriquecedor. Mas para isto é preciso haver organização; e este é o segundo aspecto: quais diferentes confessionalidades o grupo se dispõe a abrigar sistematicamente (e não apenas de modo episódico), e de que modo garante os espaços para suas diferentes expressões. Aqui se definem necessariamente fronteiras, pois nenhuma associação consegue ser ilimitamente aberta.

Por seus estatutos, a SOTER não é uma associação confessional, no sentido estrito. Centra-se no debate científico. Sem desconhecer que a elaboração da teologia provém de confessionalidades, enfatiza a disposição de levar adiante a abertura ecumênica. Mas sua origem e o conjunto fortemente majoritário de seus membros sugerem uma identidade real católica romana, que seria ingênuo negar, inclusive por uma questão de respeito a outras confessionalidades. Esta identidade real pode mudar na medida em que as diferentes confessionalidades se sintam não apenas afetivamente bem dentro da associação, mas também efetivamente em sua forma de se estruturar e de proceder. A identidade confessional é, desta forma, uma pergunta que a SOTER certamente carrega em sua agenda existencial.

Resta ainda lembrar que os vínculos da reflexão teológica com a fé que pessoas e comunidades concretas vivem, levam a se esperar da SOTER uma contribuição específica para o interior das comunidades eclesiais. Estas necessitam dos serviços da teologia e das ciências da religião para melhor compreender e formular sua fé, bem como para traduzi-la em opções de vida. A autonomia civil da SOTER não veio como independência e desvinculação com respeito às comunidades, mas como instrumento para garantir uma contribuição mais livre e participativa. O fortalecimento dos laços da teologia e das ciências da religião com as universidades não deveria significar enfraquecimento dos laços com as comunidades de fé. Caso contrário, a teologia perderia facilmente o pathos que a teologia na América Latina tanto valorizou.Nesta mesma linha seria por fim útil lembrar que a SOTER se alimenta de uma mística. O profissionalismo universitário da maioria de seus membros não deveria obscurecer os ideais que a presidem e as fontes que a nutrem. Desta forma, parece indispensável que o coração das comunidades eclesiais, com seus problemas e esperanças, continue pulsando dentro da SOTER

[1] ANJOS, M.F. Introdução a uma pauta sobre a teologia como profissão. In IDEM. Teologia: Profissão. São Paulo:Loyola, 1996, p.21; Anjos, M.F. Interfaces da Teologia. In IDEM. Teologia aberta ao futuro. São Paulo: Loyola, 1997, p. 13-20.